quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A Conspiração contra a América (Philip Roth)

Em A Conspiração contra a América Philip Roth traça-nos o cenário dantesco que imagina (acredita?) que poderia ter sido a sua infância se o herói da aviação Charles A. Lindbergh fosse eleito Presidente dos Estados Unidos derrotando Franklin Delano Roosevelt, quando este concorria ao seu terceiro mandato, inaugurando um período de anti-semitismo comparável ao que viveu a Alemanha durante o III Reich. É, portanto, um exercício de história virtual, uma espécie de pesadelo narrado por uma criança norte-americana judaica que vivencia junto com a sua família uma purga anti-semita no seu país tal como vivenciaram as crianças europeias judaicas e as suas famílias nos países ocupados ou aliados da Alemanha Nazi.

A prosa, apesar de escrita com a categoria que se espera de um dos maiores escritores norte-americanos e do mundo da actualidade, não chega a ser empolgante, embora também não seja enfadonha. As semelhanças com os acontecimentos ocorridos no mesmo período (Junho de 1940 a Outubro de 1942) na Europa são de tal forma evidentes que não causam uma verdadeira sensação de surpresa no leitor, sendo que as violências sofridas pelas comunidades judaicas do velho continente são sobejamente conhecidas. A novidade é apenas o cenário geográfico das atrocidades anti-semitas, assim como o desmoronar dos principais valores dos EUA consagrados nos estruturantes documentos da Bill of Rights (1689), da Declaração da Independência (1776), além da herança dos founding fathers e de Abraham Lincoln, que capitularam perante a emergência do fascismo e do anti-semitismo nas terras do Tio Sam.

Como qualquer obra de história virtual, onde factos e ficção se confundem intencionalmente, é feito um “julgamento” de várias personagens históricas constantes na obra. Assim, Franklin D. Roosevelt surge divinizado enquanto Charles A. Lindbergh, Henry Ford e Burton K. Wheeler aparecem diabolizados. Contudo, no geral, o autor apresenta as personagens de acordo com a opinião (fundamentada) que formou sobre as mesmas ajustadas com as suas convicções ideológicas.

Nesta estória, a máxima do: não aconteceu mas podia ter acontecido parece-nos um bocado exagerada tanto no tempo como no espaço, embora esteja patente que a mesma (escrita em 2004) pretenda resultar como um alerta para os norte-americanos e para o mundo do perigo da democracia americana perecer perante um totalitarismo de direita, nacionalista e xenófobo.